Conto: Quase Velho

monochrome photo of an old man
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Eu tenho sessenta e um e aposentei há três anos. Jovem, muitos diriam. É porque eu sempre trabalhei em funções que envolviam riscos, como aparelhos de raio-x e transporte de combustíveis. Nunca tive medo, eu acho. Ou talvez eu apenas não me importasse se algo de ruim acontecesse. De qualquer forma, eram trabalhos que pagavam bem, não eram difíceis e eu sabia que poderia me aposentar mais cedo. Só que não há a menor graça em ser aposentado, do mesmo jeito que trabalhar era um porre. O problema não é o que você faz ou se você não faz nada, o problema é você mesmo. Eu sou um velho insuportável, essa é a grande verdade.

Não sei como ela me tolera. Não sei porquê. Trinta e cinco anos juntos, sempre esperando mais de mim, sempre com esperança de que eu me tornaria uma pessoa melhor. Não sei se ela tem amor por mim ou pela pessoa que ela imagina que eu poderia ser. Nunca vou saber, acho que nem ela. Ela não é como as outras mulheres, que ficam fofocando ou assistindo novelas. Ela fica boa parte do dia lendo no computador. Eu gosto muito de ler, desde os jornais até quaisquer livros que estejam repousando por perto. Leio até rótulos de produtos, inteiros anúncios de recall das fábricas, trabalhos escolares dos meus netos, faixas de divulgação de eventos municipais… Ler é a forma que eu tento entender o mundo. Afinal, se os significados já estão arranjados em palavras e frases, é muito mais fácil tentar decodificar as mensagens do que simplesmente observar tudo ao meu redor, buscando padrões e sentidos nas coisas. Como se você não soubesse jogar dominó e tentasse aprender apenas observando os velhos jogando na mesa de cimento do parque. Não seria muito mais fácil aprender se você pudesse ler as regras? Ou assistir a um vídeo explicativo?

Outro dia eu tentei me inserir nesse mundo dos velhos e aposentados que jogam dominó e bebem para esquecerem que são velhos aposentados. Fui até o bar primeiro, porque sem álcool ficaria muito difícil suportar a experiência. O garçom muito mal-humorado me serviu uma cachaça com limão que não tinha o mesmo gosto daquelas que eu tomava quando jovem. Era muito mais amarga, não sei se por causa da péssima qualidade da cachaça ou se havia muito da casca do limão. Mas eu bebi mesmo assim. Com a minha idade, ficamos cada vez menos seletivos com as nossas experiências sensoriais: qualquer coisa que pudermos sentir que não seja dor, aceitamos.

Quando cheguei às mesas de cimento no parque, havia cinco rapazes risonhos lá. Era um grupo que se conhecia bem, pelo menos era essa a impressão que qualquer transeunte teria. O ambiente era muito agradável, um morno sol de outono, cheiro de terra e folhas ainda úmidas do sereno da noite anterior e alguns pássaros compondo a trilha sonora de improviso, mas com maestria. Me aproximei sem dizer nada, apenas observando as peças na mesa e em movimento. Percebi alguns olhares curiosos, apreensivos até, com a minha chegada. Afinal, eu era um desconhecido, um forasteiro que invadia o território tão bem conquistado do bando. Eu não havia sido aceito ou convidado pela tribo e, para piorar, eu ainda parecia mais jovem do que eles!

“Você sabe jogar, menino?”, um deles rompeu o silêncio com um tom de voz firme. O termo da pergunta sugeria uma oferta de paz, mas o substantivo era depreciativo e deixava bem claro que ele não me enxergava como um semelhante. Olhando nos olhos do sujeito, respondi que sim, mas com tanta introspecção que mais pareceu um murmurar gutural. O velho voltou seu olhar ao jogo e esse era o sinal de que a minha permanência era aceita, para observar, pelo menos. Nos minutos seguintes, eles jogaram mais quietos do que antes, como se avaliassem o risco que a minha presença representava para eles. Tentavam descobrir se poderiam agir naturalmente enquanto eu estivesse ali, como criminosos com medo de um investigador disfarçado.

Uma reviravolta no jogo fez com que seus ânimos se exaltassem, palavrões sorridentes foram emanados e o gelo totalmente quebrado. Um deles perguntou se eu queria jogar. “Não, obrigado, sou um péssimo jogador e não gosto de perder”, respondi com o meu sorriso amarelo. Eu tenho quase todos os dentes. São bem amarelados, mas são naturais. Eles continuaram e, ora ou outra, alguém olhava pra mim na ocasião de uma piadinha. Eu apenas sorria ou fazia, no máximo, um som animalesco que se eu fosse tentar escrever seria algo como “rêug”.

Escutei a conversa que eles tinham enquanto jogavam durante uns vinte minutos: falavam mal das esposas ou ex-exposas, falavam bem dos filhos, falavam de futebol e algo superficial sobre política. Tão cansativo, tedioso, previsível. Na verdade, parecia que ninguém se conhecia direito ali. Era um triste grupo de homens que outrora se sentiram úteis e que agora tentavam se manter distraídos de suas próprias condições existenciais. A memória seletiva deles faz com que lembrem desses momentos como agradáveis ocasiões entre amigos. A nossa memória distorce as coisas mesmo.

Essa experiência me fez perceber que eu não tenho problemas com velhos ou com dominó, o meu problema é com as pessoas. Pouquíssimas pessoas durante toda a minha vida despertaram o meu interesse, me fizeram ter vontade de conversar e ficar perto delas. Agora estou quase velho e aposentado e, mais uma vez, não sei o que fazer da vida. Claro que vou continuar lendo livros, dicionários, bulas, folhetos, avisos em letras miúdas etc. Mas além disso, o que mais? Será que se eu encontrasse algum trabalho isso me faria sentir melhor? Mais útil? Eu nunca achei que o meu trabalho fosse útil. O trabalho de um cirurgião ou de um professor é útil, mas quase todo o resto são como peças de dominó, apenas se mexem de um lado para o outro.

Acho que a melhor opção é não dar trabalho pra ninguém, especialmente para a minha querida e dedicada esposa. Por isso não falei da metástase. Nem vou falar. Se não acabar de forma súbita, eu dou um jeito de não ficar aqui gerando sofrimento para todos. Vou deixar o tratamento para quem ainda está no começo da vida, ou no meio dela. Alguém interessante que fale sobre coisas boas e com vontade de melhorar o mundo. Eu sou apenas um quase velho rabugento e insuportável.

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