Conto: Um dia no escritório

man sitting in front of computer
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O que você faria se estivesse no meu lugar? Saí atrasado de manhã, mal consegui escovar os dentes. O estômago roncando de fome. Na hora de estacionar o carro, as melhores vagas já haviam sido tomadas, tive que parar bem longe do elevador. Quando eu chego, a recepcionista que costuma ser muito amável, me olha torto porque é a terceira vez na semana que eu chego atrasado. Cumprimento apenas os que estão mais próximos de mim e ligo o meu computador. Parece que ele demora duas horas para iniciar, mesmo sendo muito potente. Quando consigo logar já se completaram quase duas horas de atraso! Abro a minha caixa de e-mails e, além dos três que eu não respondi no dia anterior, porque eu saí mais tarde pra tentar compensar pelos atrasos, há mais cinco e-mails só deste curto espaço de tempo no qual eu me atrasei. Deixo aberto o menos importante e vou fazer um café para acordar e tapear a fome. Eu não deveria sair de casa com o estômago vazio, dizem que faz um mal danado pular o café da manhã.

Volto à minha mesa e vou respondendo aos e-mails. Abro os outros softwares que eu utilizo diariamente, todos pesados e levando séculos para terminar de carregar. Abro alguns arquivos que estão na rede e começo a trabalhar neles. Quando vou salvar, há um conflito. O Gregório chegou mais cedo e assumiu este trabalho, mas não me avisou. Só após eu ter passado quarenta minutos mexendo no arquivo na hora de salvar é que eu percebo o conflito, pergunto e descubro que o senhor certinho que chega na hora certa já estava terminando o que precisava ser feito.

Parto para o próximo projeto, dessa vez me certifico de que mais ninguém está mexendo nos arquivos. Então o trabalho não flui. Minha mente sai à deriva como um barquinho de papel soprado sobre a superfície de uma piscina de plástico. Ora presto atenção na conversa ao telefone da equipe de atendimento, ora me pego pensando no que eu gostaria de fazer no próximo final de semana. Quais filmes estão em cartaz? Será que tem alguma coisa mais cultural acontecendo do que cinema de Hollywood? Onde eu vou almoçar hoje? Estou com tanta fome… E o arquivo aberto no meu computador simplesmente não evolui. Resolvo descer para fumar um cigarro — coisa que é mal vista por todos os não fumantes da empresa. É como se eu escolhesse ter um vício e fizesse isso para me ausentar por quinze minutos ocasionalmente. Eu sou viciado, não preciso que achem ruim comigo, eu compenso depois do expediente e nunca reclamei quando fui convocado a trabalhar no final de semana — sem receber a mais por isso. É que o meu contrato é de pessoa jurídica, então não tenho nenhum direito trabalhista. Sendo assim, teoricamente não tenho vínculo empregatício, então eu deveria ser remunerado pelo que eu produzo e entrego, não pelo tempo que eu fico lá em cima sentado. Acabo fumando com raiva desse esquema todo e o cigarro acaba não me ajudando a relaxar e limpar a mente.

Volto e percebo que estou exalando cigarro, o que incomoda alguns. O perfume de algumas pessoas também me incomoda, para mim cheira a fedor, mas eu não sou indelicado como são comigo em relação ao meu cheiro. Coloco fones de ouvido para me concentrar no trabalho. Sou interrompido pelo telefone: o meu chefe, que está a poucos metros de mim, na pequena sala dele, me ligando para saber sobre o andamento do projeto, que deve ser entregue hoje. Digo que estou trabalhando nele e que em alguns minutos apresentarei algumas propostas. Eu odeio ser interrompido pelo telefone quando estou trabalhando, perco totalmente o foco. Coloco dubstep para tocar, assim nenhum outro barulho vai me atrapalhar. Termino algumas partes, mas não estou satisfeito. Refaço um pedaço e considero aceitável. Envio por e-mail ao meu chefe. Pego outro café, enquanto começo a trabalhar no outro projeto que deve ser entregue ainda hoje. Enquanto estou focado nesta segunda empreitada, recebo a notificação de um e-mail novo: é o meu chefe, dizendo que não gostou do que eu fiz para o primeiro projeto. Preciso retomar o trabalho anterior e reenviar antes de continuar trabalhando no segundo do dia. Após algum tempo, envio tudo e me sinto livre. O chefe me chama na sala dele. Ele gostou do trabalho e pede que eu dê andamento. Na caixa de e-mail há outros projetos para os próximos dias, mas agora eu preciso parar tudo para providenciar o andamento das duas obras que eu apresentei hoje.

Desço para almoçar e, durante o almoço, não consigo evitar falar de trabalho:

— Milton, você pode verificar e dar andamento em dois projetos para mim? Eles são prioridade porque o prazo de entrega é ainda hoje.

— Pode deixar, Oliveira. Eu cuido disso, sim. Você está bem?

— Estou um pouco estressado, só isso.

— Então não vamos falar de trabalho durante o almoço — pede Milton. — Como vai o seu relacionamento com aquela moça, a Denise?

— Ah, não deu certo, Milton. Ela era muito ciumenta e não me dava espaço, sabe? Eu gosto de ter o meu tempo só pra mim, ela queria todo o meu tempo só pra ela.

— Entendo. Eu ainda estou saindo com a Tatiana, mas não é bem um namoro porque a gente pode ficar com outras pessoas. Acho que eu não confiaria namorar sério com ela porque ela tem muito fogo — confessa Milton.

— E você sente falta de um relacionamento estável? — pergunto.

— Na verdade, eu sinto, Oliveira. Queria ter alguém como você tinha a Denise, alguém pra dividir todo o meu tempo livre. Irônica a vida, não?

— Pois é, Milton. Mas eu também não quero uma Tatiana fogosa, tudo o que eu queria nessa vida era um pouco mais de paz.

Voltamos do almoço e agora toda vez que eu vejo a Tatiana eu só consigo enxergar uma ninfomaníaca. Às vezes é melhor não saber dos detalhes íntimos da vida das pessoas. Escovo meus dentes e retomo o trabalho. Larissa me consulta, pede a minha opinião sobre o trabalho dela. Dedico cerca de meia hora auxiliando a garota. De resto, tudo vai bem. Consigo até adiantar um pouco os projetos que são para o dia seguinte, tendo entregado os de hoje com sucesso. O telefone toca, é do fornecedor, querem confirmar algumas informações. Confirmo tudo, faço um café e desço para fumar outro cigarro. Dessa vez a minha mente flui melhor. Estou mais calmo e consigo aproveitar o momento para recuperar um pouco de energia criativa.

Subo e descubro que um dos projetos precisa ser entregue ainda hoje, porque senão não vai dar tempo de ser tudo entregue conforme o prometido. Foi um erro de planejamento na determinação do prazo. Sinto-me sob pressão e tenho dificuldades para dar continuidade ao projeto. Vejo meus colegas indo embora da empresa enquanto eu preciso finalizar o trabalho. Meu chefe para atrás de mim e fica olhando a minha tela. Como eu odeio quando ele faz isso! Deixe-me trabalhar em paz! Ele dá uns pitacos e volta para a sala dele. Meia hora depois, está tudo pronto e envio por e-mail para ele. Ele me liga e diz que está okay, que eu só preciso enviar para o e-mail do Milton pedindo para ele providenciar tudo ainda hoje.

Quando chego no estacionamento, quase nenhum carro está mais lá. O meu, solitário, quase fica feliz em me ver. A felicidade dura pouco porque pego um congestionamento danado. Após uma hora e meia dirigindo, chego no meu prédio. Subo, tiro os sapatos e me jogo no sofá. Não quero assistir televisão, nem nada. Só quero paz. É então que o meu gato vem e sobe nas minhas costas, dá um giro e se ajeita. Parece até que ele sabe que eu estou estressado. Ali eu fico durante uns quarenta minutos, em silêncio, apenas sentindo o calor do meu animal de estimação sobre as minhas costas, relaxando os meus músculos tensos de estresse. Não quero saber de Denise, Tatiana ou qualquer outra pessoa. Meu mundo agora é só meu e eu reino absoluto com o meu gato.

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