Crônica: a noite do vampiro bully

Christopher Lee no filme “O Vampiro da Noite”, de 1958

Gilson adorava histórias de vampiros. Havia conhecido o tema com a saga “Crepúsculo”, depois foi tendo contato com as histórias mais antigas como “A Rainha dos Condenados”, “Entrevista Com O Vampiro” e “Drácula de Bram Stoker”. Chegou até mesmo a assistir os clássicos em preto e branco, como “A Marca do Vampiro”, com Bela Lugosi, “O Vampiro da Noite”, com Christopher Lee, e “Nosferatu”, de 1922. Adorava a sensação de poder que os vampiros transmitiam, o seu jeito sombrio e sedutor, ao mesmo tempo belo e macabro. Gilson sofria bullying na escola e, toda noite antes de dormir imaginava como iria destruir os seus opressores se tivesse os poderes de um vampiro.

Quando perdeu os últimos dentes de leite, aos 12 anos de idade, Gilson passou a apreciar o sabor do sangue. Sempre que se machucava, aproveitava para sentir o sabor ferroso da sua própria seiva. Quando ia a restaurantes, sempre pedia sua carne mal passada, vermelha e ainda escorrendo sangue do boi, outrora um animal cheio de vigor. Agora tinha 14 e estava naquela fase em que não se sentia mais criança, mas também parecia muito distante do mundo adulto. Ele não sabia o que queria da vida, mas sabia que continuava adorando aquelas fantásticas criaturas da noite. Inspirava-se nelas e vestia roupas escuras, fechadas, o que só aumentava a quantidade de bullying que sofria por ser diferente da maioria.

Certa noite, quando voltava para casa de algum lugar qualquer, Gilson passava ao lado do cemitério quando escutou um zunido estranho. Pensou estar com pressão nos ouvidos e bocejou para tentar resolver. O zunido então se transformou em um som de ventania, um trovão abalou os céus e o pobre garoto pulou de susto com o barulho e o clarão. Percebeu que a neblina tinha se intensificado sem que ele pudesse notar a transição visual do cenário. Folhas secas rodavam sobre o chão com o vento forte. Quando deu mais alguns passos, viu uma figura escura surgir por entre a névoa: era um vampiro que estava bem à sua frente. Gilson sentiu medo, porém sentiu mais admiração. Ficou paralisado frente àquela criatura diabólica.

— Então você quer ser um vampiro? — perguntou a aberração, com uma voz sombria que assustaria até os mais corajosos.

— Sim, sim — respondeu Gilson, gaguejando um pouco.

— Gostaria de ser condenado a uma existência eterna causando sofrimento, destruindo vidas e famílias, desfazendo os planos aos quais as pessoas dedicaram todo o seu tempo? É isso que você quer ser? — perguntou o vampiro, com um tom de descrença e intimidação na voz.

— Eu… Eu acho que sim — respondeu Gilson, hesitante. — Mas não quero ser assim para sempre, só por algum tempo, apenas para me vingar.

— Então é a sede de vingança que cria tal desejo em seu ser? — perguntou o inquisitivo monstro. — Então recusas a ideia da imortalidade?

— Sim, não quero ver todas as pessoas que eu gosto envelhecendo e morrendo. Quero que a minha vida tenha um fim. E eu não quero matar um monte de gente inocente apenas para me alimentar, isso não seria justo. Quero apenas me vingar daqueles que me atormentam!

— Entendo. Sendo assim, não queres ser um vampiro. Tudo o que você quer é um pouco de poder por um pequeno período de tempo. Você me fez foi perder tempo, não que me fará alguma falta — diz o vampiro, rindo sarcasticamente.

— Me desculpe — pediu Gilson. — O seu poder me fascina, mas no fundo eu realmente não quero ser como você!

— Você não precisa de poderes sobrenaturais para enfrentar valentões na escola. Tudo o que você precisa é de um pouco de coragem ou estratégia.

— Sim, você tem razão, eu tento, mas nunca tentei o suficiente — confessa Gilson. — Eu prometo que vou me esforçar para resolver este problema sem a necessidade dos poderes míticos dos vampiros!

— Muito bem. Mas antes, deixe-me saciar a minha sede! — dizendo isso, o vampiro assustador salta para cima de Gilson e arreganha a sua boca, exibindo em frações de segundo os seus grandes e perfurantes dentes caninos.

Gilson deu um pulo de susto e então acordou. Foi a última vez que ele molhou a cama durante a sua adolescência.

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