Conto: Admirável Policial Novo

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Foram seis meses observando a rotina e o modo de funcionamento da joalheria. Além disso, observamos também como se distribuem os seguranças do shopping center, inclusive os policiais à paisana. Era preciso saber de todas as variáveis. Após seis meses de planejamento, resolvemos partir para a ação: assaltar a joalheria.

— Boa noite, senhora, isso é um assalto — digo, murmurando ao ouvido da vendedora. — Se você gritar ou fizer escândalo você vai se machucar, então recomendo que colabore conosco, assim ninguém precisa sair ferido desta situação.

A moça deveria ter cerca de 25 anos, cabelos pretos bem presos e roupa social adequada ao alto padrão da joalheria. Ela olha para a outra vendedora, provavelmente sua superior, já rendida pelo Denilson. Ambas demonstram medo e ficam quietas. Estávamos em três e elas, em apenas duas.

— Primeiro vamos abrir o caixa — instruo a vendedora. — Com calma, coloque todo o dinheiro dentro de uma sacola da loja.

A moça faz o que eu falo. Fernando fica na porta da loja com uma roupa típica de quem faz transporte de valores, com colete à prova de balas e boné. Quando alguém tenta entrar na loja ele pede que retorne em alguns minutos, dizendo que está havendo uma inspeção de segurança ali.

Denilson faz com que a outra vendedora comece a colocar as joias dentro de sacolas da loja. Vamos levar tudo o que tiver do lado de dentro, deixando apenas o mostruário das vitrines no lugar. Em menos de dez minutos já temos tudo o que queríamos. Conforme planejado, o policial à paisana está do outro lado do shopping neste momento. Saímos e o Fernando avisa:

— Se alguma de vocês duas abrir a boca nos próximos cinco minutos, eu posso até ir preso, mas eu volto aqui antes disso para matar vocês — o tom de voz calmo e grave soa assustador para as duas mulheres. Elas vão cooperar.

Partimos em direção à saída, com um carro esperando já do lado de fora, pronto para sair em alta velocidade, se for preciso. Entretanto, no meio do caminho, antes de chegarmos à saída, cruzamos com outro policial à paisana, não o de sempre. Ele nos olha estranho e começa a nos seguir discretamente. Após algum tempo, pouco antes de cruzarmos as portas que dão acesso à rua, ele diz:

— Ei, vocês, olhem pra cá. Polícia!

Paramos devagar e nos viramos para ele.

— Pois não, senhor? — digo ao homem.

— Vocês estão com várias sacolas da joalheria e isso não é o procedimento da empresa que transporta valores. Vou precisar dar uma olhada aí no que vocês estão carregando. Vocês tem nota fiscal de tudo isso aí?

Deveríamos estar com cerca de seis sacolas da joalheria, marca famosa e chamativa. Em duas delas, apenas dinheiro em espécie, cerca de doze mil reais, muito menos do que esperávamos conseguir com a empreitada.

— Olha, meu amigo — diz Fernando. — Eu sei bem como é a vida de um policial militar. Nada fácil. Agora eu também sei como é a vida de um banqueiro. A joalheria tem seguro contra roubo e quem vai levar o prejuízo são alguns banqueiros, aqueles que emprestam dinheiro que não têm e ainda cobram juros em cima. Aquele povo que cobra para cuidar do nosso dinheiro. Então eu não tenho pena de quem será prejudicado nesse caso.

— Então você está admitindo ter roubado a loja? — pergunta o policial, surpreso com o que estava ouvindo.

— Sim, e estamos os três armados. Por que a gente não faz assim: eu deixo uma sacola ali naquela lixeira para você recuperar assim que a gente sair pela porta. Nenhuma vítima, um crime limpo e justo. Eu sei que salário de PM é difícil, que é preciso arranjar uns bicos pra poder sobreviver. Com uma sacolinha dessas você consegue uns dez mil brincando. Se quiser agradar a sua esposa — vejo que está de aliança — poderá surpreendê-la com algum dos produtos de alta qualidade.

O policial para e pensa. Ele olha nos olhos de todos nós. Eu estou com uma barba falsa e óculos. Fernando está de boné e bigode falso. Denilson está de peruca e óculos escuros. Todos levemente disfarçados. O policial está tentado, ainda mais porque nesse final de corredor não há testemunhas.

— Digamos que eu concorde, você vai deixar uma sacolinha naquela lixeira, sair pela porta e sumir? Já tem algum carro esperando por vocês?

— Sim, a gente vai sumir. Aí você pega a sacolinha de dentro do lixo e também sai do shopping, pega um táxi ou coisa assim. Todo mundo sai ganhando e os únicos que levam prejuízo são os banqueiros, aqueles que nos roubam constantemente com a permissão do governo — digo ao homem, tentado pela situação.

— Está bem, vou me sentar naquele banco e contar até cinquenta. Quero ver você colocar a sacolinha dentro da lixeira e depois desaparecendo pela saída.

E assim fazemos, deixamos uma das seis sacolas na lixeira e fugimos do local. Quando chegamos no apartamento do Fernando, avaliamos os resultados. Além dos doze mil em dinheiro, cerca de setenta mil em produtos. Esperávamos ter conseguido bem mais, entretanto ficamos satisfeitos porque tudo correu bem.

O policial realmente fez o que combinamos. Sua esposa recebeu um anel lindo e o restante ele vendeu anonimamente pela Internet. A vida de criminosos que não deixam vítimas é tão difícil quanto a vida dos policiais militares. É por isso que, mesmo sendo ladrões, nós admiramos esses sujeitos que diariamente arriscam as próprias vidas para proteger a vida dos outros.

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