Crônica: Sonorífera Ilha

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Vinícius saiu para fumar um cigarro. O que ele guardava dentro daquele tempo? Reflexões sobre a vida? Soluções para os problemas do trabalho? Não, Vinícius estava pensando em como seria bom ir para uma praia deserta. Tudo o que ele queria era estar numa praia daquelas que tem a água meio transparente, levemente azulada. Alguém para lhe servir mojitos e um aparelho qualquer para ele escutar música. Ou nem precisava de tanta coisa: tendo alguém para lhe servir água de coco gelada já estava bom demais, e o som poderia ser o das leves ondas do mar chegando até os seus pés.

Mas a realidade era outra. Vinícius estava no meio de São Paulo, a dezenas de quilômetros de qualquer praia. Tudo o que ele tinha era o seu cigarro e o tempo para devanear. Quando voltou à sua sala, sua mente estava refrescada pelo simples pensamento daquele cenário paradisíaco. Tirou o telefone do gancho, não queria mais ser incomodado naquele fim de dia. Terminou o que tinha para fazer e foi embora. A chuva estava cruel e o ponto de ônibus, lotado de gente espremida ou com seus guarda-chuvas escorrendo na cabeça daqueles que não tinham tal objeto de defesa. Vinícius decidiu que não se importaria com a chuva, afinal ela estava refrescante como a água do mar em seus pensamentos. Fazia calor na capital, era pleno mês de fevereiro.

Vinícius entrou no ônibus e lamentou que todos fecharam as janelas por conta da chuva. O cheiro de gente o incomodava e os vidros iam ficando embaçados com a respiração condensada das pessoas amontoadas no coletivo. Pelo menos tentavam não encostar em Vinícius porque ele estava ensopado. Ele já não ligava para isso ou para nada. Só queria chegar em casa e tomar um banho, depois jantar e descansar. Mas o trânsito também estava cruel porque, além de ser a hora do rush, a chuva só servia para piorar o quadro. Vinícius tentou recuperar a calma respirando fundo, mas quando fez isso o cheiro das outras pessoas — um misto de suor, desodorante, creme de pentear e outros produtos que servem para disfarçar o fedor humano — o deixou mais irritado ainda. Em pé, pingando, pelejou para permanecer em calma naquela situação labiríntica.

Quarenta e tantos minutos depois, ele finalmente desceu do ônibus. Era a primeira vitória da noite. Agora só precisaria enfrentar o metrô, depois o trem, depois o último ônibus e enfim estaria no lar, longínquo lar. Quando chegou, estava quase seco, porém com a pele grudenta. Por dentro, esgotado e na mente, apenas o sonho da água litorânea e da paz que haveria em sua ilha quase deserta. Vinícius morreu sem visitar tal praia. Mas naquele dia, naquela noite, apenas o pensamento de tal lugar foi reconfortante para o pobre trabalhador que se sentia ilhado de tão solitário que foi durante a vida.