Conto: Pedro Viaja e Volta Atrás

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Pedrinho sempre gostou das ciências naturais. Era Pedrinho apenas para a família, porque depois de adulto virou Pedrão na faculdade e no ambiente de trabalho, um sujeito alto e muito inteligente. Dava aula para alunos de curso superior e também trabalhava com pesquisa acadêmica. Era fascinado pela ideia do tempo, sua dimensão favorita, sem dúvidas. Certo dia, ficou até mais tarde em sua sala rabiscando um quadro branco, daqueles em que se escreve com caneta preta. Estava tentando encontrar a maior correlação entre a força da gravidade e o tempo, já que um influencia o outro. Saiu de lá se sentindo derrotado por não ter feito o progresso que gostaria.

Voltou para casa e cumprimentou a sua esposa, Jaqueline. Ele não tinha filhos, dizia que era muita responsabilidade e que talvez no futuro ele pensaria melhor a respeito. Jaqueline concordava pois sabia que o trabalho era pesado e, por conta do amor, ficaria até o seus últimos dias preocupada com a sua prole. Ela sabia que quando ele voltava um pouco mais tarde é porque tinha ficado corrigindo provas ou fazendo os seus cálculos sem fim. Não havia ciúmes porque havia confiança. Ela trabalhava em um banco, na parte administrativa, e gostava do emprego. Não era ambiciosa como Pedrinho, que sempre sentiu que um dia contribuiria para a Física Teórica.

Enquanto tomava um banho quente e relaxante, Pedro teve algumas ideias sobre como resolver os problemas em que estava trabalhando. Saiu do meio do banho para anotar as ideias. Voltou, terminou o banho, vestiu-se e deu um beijo em Jaqueline. Ele precisava voltar aos seus cálculos. Aproveitou que não tinha mais ninguém e usou um grande quadro branco de uma sala de aula. Ali fez centenas de operações matemáticas, incompreensíveis para a maior parte das pessoas, que provavelmente veria apenas números e símbolos dispostos de forma aleatória. Na mente de Pedrinho, era um passo mais próximo de entender como manipular o tempo. Anotou tudo em seu caderno e apagou do quadro branco. Era um sujeito muito pragmático e não queria que outros vissem o seu trabalho, que julgava perigoso se caísse nas mãos erradas.

Comentou com Jaqueline, que ficou entusiasmada com o trabalho do marido. Nos dias seguintes, passou a comprar materiais diversos e a trabalhar horas a fio na garagem de sua casa. Assim que chegava em casa, jantava e ia para a garagem trabalhar em seu projeto especial. Após três meses, seu dispositivo estava pronto: era uma máquina gravitacional que, devidamente configurada, permitia que uma pessoa viajasse no tempo — inclusive para trás, desafiando todas as leis da Física. Conversou muito com a sua mulher sobre o que poderia ser feito com aquele recurso, sobre qual seria o melhor emprego de tamanha tecnologia cujas implicações poderiam ser desastrosas. Depois de uma semana de planejamento, eles chegaram a uma conclusão.

Era hora de colocar o dispositivo para funcionar. Pedrinho estava prestes a voltar no tempo. Voltaria para o dia 20 de abril de 1889, na Áustria. Quando chegou onde desejava, esperou um momento no qual ninguém estava olhando e, com apenas um travesseiro, asfixiou um bebê recém-nascido. Era Adolf Hitler. Saiu logo da maternidade e voltou ao seu tempo presente, ansioso para ver o resultado da sua primeira intervenção na História. Quando chegou, foi falar com sua esposa. Ela não entendia mais o que ele havia feito.

— Então você voltou no tempo para matar alguém e prevenir uma grande guerra? — perguntou Jaqueline.

— Sim! Eu matei um dos maiores ditadores do século XX, provavelmente impedi a morte de milhões de pessoas. Conte-me o que você sabe sobre como foi a década de 1940 para a Alemanha e países da região?

— Bem, a Alemanha entrou em guerra contra a Polônia durante alguns anos e conquistaram uma cidade chamada Danzig. Depois disso, fizeram um acordo de paz e as fronteiras se solidificaram. A Polônia cedeu ao comunismo soviético após o enfraquecimento sofrido com a guerra, mas durante pouco tempo.

— Então você nunca ouviu falar em campos de concentração na Alemanha ou mesmo sobre o muro de Berlim?

— Não, querido, não sei do que você está falando — respondeu Jaqueline.

Pedrinho se sentiu um herói. Havia salvado vidas de múltiplas nacionalidades.

— E na Itália, não houve um ditador chamado Mussolini? — perguntou.

— Sim, mas ele foi facilmente deposto quando não teve apoio de mais nenhum país vizinho, todos democratizados.

— E a Palestina, você já ouviu falar nela?

— Sim — respondeu Jaqueline. — É um próspero país no Oriente Médio.

— E parte dela se tornou Israel quando surgiu a ONU? — Pedrinho perguntava sem parar, tentando compreender as consequências da sua ação.

— Quando surgiu o quê? Israel é algo da bíblia, não é?

— Uau. Não existe ONU e nem Israel, então? Onde vivem os judeus?

— Bom, Pedro, há judeus espalhados por todo o mundo. Aqui são poucos, mas existem muitos nos EUA e em quase todos os países europeus. Na Palestina mesmo deve ter alguns milhões deles vivendo lá.

— E a vida é pacífica na Palestina?

— Sim, acho que todos se dão bem na região — respondeu a esposa.

Pedrinho não cabia dentro de si de tanto orgulho e alegria. Além de ter prevenido a Segunda Guerra Mundial, havia resolvido os conflitos entre judeus e palestinos. Ninguém mais brigava pela terra por lá. Todos viviam em harmonia e com tolerância. Sua intervenção histórica parecia ter sido um sucesso avassalador.

— Pedro, acho que você está contente porque fez algo de bom, que eu não compreendo porque não sei exatamente o que você fez pela História, mas de qualquer forma, precisamos nos trocar e ir ao evento de hoje à noite, lembra?

— Evento… Não me lembro, o que iríamos fazer mesmo?

— Fomos convidados para o apedrejamento da adúltera Helena Sampaio, que saiu no jornal e tudo mais. Vamos, pegue o seu revólver e vamos.

— Apedrejamento? Como assim? E que revólver?

— Pedrinho, você está estranho. Vai dizer que agora prefere pistolas automáticas? Você sempre preferiu os revólveres oldschool

— Ai, Jaqueline, o que houve com a nossa sociedade?

— Nada, ué. Você está estranho desde que retornou do passado — disse a desconfiada esposa.

— Mas a gente é civilizado, não apedreja pessoas na rua e não carrega armas, não no Brasil. A gente cuida e ajuda uns aos outros!

— Como assim, Pedro? Você se refere às pessoas que vivem na miséria? Não podemos ajudá-las, temos que cuidar de nossas próprias vidas.

— E o Estado, não ajuda as pessoas? E os direitos essenciais?

— O Estado nos serve para transformar os impostos em proteção da propriedade, essencialmente. O que mais você esperava dos governantes?

— Eu esperava saúde e educação pública, além da segurança — disse o transtornado Pedrinho.

Então ele percebeu que, ao eliminar Adolf Hitler, havia eliminado também uma sequência de eventos que havia culminado na disseminação da noção de direitos humanos e que, durante décadas, havia tornado a educação um dos alicerces da sociedade moderna. Pedro não se conformava com o que o mundo havia se tornado! Resolveu voltar. Dessa vez, conversou com ele mesmo antes de assassinar o bebê Hitler, explicou que a História deveria ser como foi porque as consequências, em última instância, foram boas — fizeram do mundo um lugar melhor para todos. Exceto no Oriente Médio, onde a ONU tomou a terra dos palestinos e entregou aos judeus como compensação pelo transtorno da Segunda Guerra Mundial. Pedro percebeu que alterar a História era uma tarefa muito perigosa, então decidiu que iria fazer apenas mais uma única viagem e, depois disso, destruir a sua fórmula. Avançou alguns dias e pegou o número da Mega Sena acumulada, depois voltou e fez seu jogo. Ele nunca mais precisou se preocupar com dinheiro ou com o tempo.